Leopoldina vai celebrar seu centenário em meio a obras e entraves

Restauração do prédio histórico só deve terminar em 2027; e o estado tem até o fim do mês para retirar bens do terreno

Por Henrique Barbi (henrique.barbi@oglobo.com.br)

A aguardada restauração da Estação Leopoldina avança, mas em ritmo lento: a previsão inicial era de que o prédio histórico inaugurado no dia 6 de novembro de 1926, no centro do Rio, seria reaberto no ano de seu centenário. Agora, a Prefeitura do Rio revisou o cronograma e calcula que as obras só venham a ser concluídas em 2027. A cargo do governo do estado, a desocupação do terreno — abrigo de antigas composições de trem e milhares de aduelas, pesadas estruturas de concreto que deveriam ter sido usadas na expansão do metrô — ainda enfrenta entraves.

O processo de desocupação ganhou novo prazo para sair do papel. Em abril, a Justiça Federal já havia determinado a retirada dos bens abandonados na área. Agora, neste mês, uma segunda decisão manteve a ordem e deu 30 dias para que a Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (Central) remova veículos, equipamentos e demais materiais sob sua responsabilidade. Na prática, o estado tem até o fim de agosto para desobstruir o terreno, sob pena de multa diária de R$ 30 mil, limitada a R$ 3 milhões.




O DESTINO DAS ADUELAS

Em nota, a Secretaria Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) informa que uma empresa, a COL (Central de Logística Ltda.), “foi contratada para retirar os veículos e equipamentos de propriedade da Central que estão no terreno da Estação Leopoldina. A previsão é de que os bens sejam transferidos para outra área da Central, em Deodoro, após a conclusão das tratativas em andamento com o Inepac e o Iphan.”

O contrato com a COL foi fechado por R$ 2,87 milhões. O texto continua: “As aduelas não fazem parte do contrato e terão tratamento específico para a retirada, conforme as avaliações técnicas e administrativas em andamento.”

Anteriormente, o governo havia alegado dificuldades logísticas e financeiras para cumprir a determinação judicial. De acordo com documentos do processo, o estado sustentou que a retirada das 6.672 aduelas armazenadas no local exigiria uma operação de nove a 12 meses e poderia custar cerca de R$ 5 milhões. Produzidas para a construção da Linha 4 do metrô, as estruturas, agora sem uso, estão distribuídas em 834 conjuntos, com segmentos que pesam entre oito e dez toneladas cada.

A Justiça considerou que o estado já tinha conhecimento da sua obrigação desde acordo firmado com a União, em 2022, e vinha sendo intimado a cumpri-la desde 2023. E destacou que a Central só começou a adotar providências efetivas para liberar o terreno anos depois das primeiras intimações.

Em visita ao local no início da tarde da quarta-feira passada, O GLOBO constatou que o canteiro estava em atividade, mas não havia operários nas áreas observadas naquele momento. Segundo um funcionário ouvido na portaria, cerca de cem profissionais atuam na obra, mas era horário de almoço. Taxistas que trabalham em um ponto diante da antiga estação também confirmaram a movimentação interna, mas avaliaram que os serviços parecem avançar “como obra de igreja”.

A Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar), responsável pela contratação da restauração, afirma que as intervenções seguem em andamento em diferentes frentes, como restauração estrutural, restauração e modernização do conjunto histórico. Segundo a empresa pública municipal, o cronograma foi previsto por se tratar de uma obra de grande porte, que exige trabalho criterioso de restauração e preservação. O projeto está orçado em cerca de R$ 80 milhões.

O adiamento da entrega ocorre cerca de dez meses depois de a própria prefeitura informar que o prédio seria reinaugurado em 2026, como parte das comemorações pelos cem anos da estação. Em outubro passado, as obras tinham acabado de ser retomadas após uma paralisação iniciada em junho, em meio a uma troca de acusações entre a prefeitura e a Concrejato, empresa à frente do projeto. A empreiteira alegava falta de pagamento, enquanto o município afirmava estar apurando possíveis descumprimentos de leis trabalhistas. Procurada, a Concrejato não havia respondido até a publicação desta reportagem sobre os motivos da revisão do cronograma, o atual estágio das intervenções ou os fatores que contribuíram para o adiamento da entrega.

Batizada oficialmente como Estação Barão de Mauá — em homenagem ao dono do título de nobreza, o empresário Irineu Evangelista de Sousa, responsável pela implantação da primeira ferrovia do país —, a Estação Leopoldina tornou-se popularmente conhecida pelo nome da empresa que a construiu. Até hoje, os 13 bairros cortados pela linha férrea na cidade são conhecidos como a Zona da Leopoldina. O prédio imponente desenhado pelo arquiteto escocês Robert Prentice, também autor do projeto do Palácio da Cidade, sede social da prefeitura do Rio, traz na fachada estátuas que representam a Indústria e a Agricultura.

FÁBRICA DO SAMBA

As mudanças no entorno da Leopoldina também passam pela construção da Fábrica do Samba Rosa Magalhães. O projeto, que integra o plano de revitalização da Região Central, está em obras e tem conclusão prevista para 2027. O empreendimento será erguido ao lado da estação.

Destinada às escolas de samba da Série Ouro, a Fábrica do Samba ocupará uma área de 28 mil metros quadrados. O projeto prevê 14 galpões, com aproximadamente 1,6 mil metros quadrados cada, distribuídos em três pavimentos, além de oficinas, ateliês, depósitos e espaços para a montagem de carros alegóricos e a produção de fantasias e adereços.

A estrutura também terá áreas administrativas, refeitório, vestiários e elevadores. No entorno, cerca de 14 mil metros quadrados serão urbanizados, com praça de eventos, áreas de convivência, passeio para pedestres, quiosques, paisagismo e nova infraestrutura urbana. O investimento previsto é de aproximadamente R$ 156 milhões.


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